Entremeios

O texto Mergulhos Poéticos: entremeios foi escrito por Breno Silva e Luciana Marcelino como uma construção fragmentada partindo do que os artistas comunicaram. Esses fragmentos também se alimentam em parte pela experiência presencial e em parte na revisão dos áudios e imagens gravados durante a residência. Ele é uma tentativa de abrir brechas para outras experimentações como uma contribuição para trazer à tona as questões sobre as discursividades e práticas artísticas e seus campos de provas.

Acesse abaixo o texto completo em formato PDF:

Waléria Américo

Sigo o ruído deixado em Pirangi, e encontrado em São Paulo, ainda não voltei pra casa. Fico pensando de longe, a tal experiência é de fato fragmentada. Lembro do primeiro território em comum que senti pisando, ao chegar a praia, muitos estavam “partidos”. De um lugar para outro era uma condição, que pouco precisa ser explicada, mas também ultrapassa o “artístico”. Mantenho a curiosidade nessa mobilidade, em nossa capacidade de pescar mesmo quando não se tem peixe. A passagem no mergulho poético foi curta, ainda lamento o que perdi, mas a vivência me levou a mensurar o direito de encontrar e desencontrar dos outros sem constrangimento.  Acreditando ainda no corpo que se esquiva e se lança em proporção variadas, do que percebi coleciono, como uma espécie de imagem sonora que me orbita, continuo feito o cajueiro que precisa outra vez tocar o solo se enraizar para gerar novas direções. A composição é no tempo, e por enquanto guardo “aos pedaços”, o que furtei de cada um nos barulhos juntos e também durante os silêncios. A mistura é um tom que busco, e imagino que as pessoas podem ser tão lugares como vice versa. Na saída percebi que levei novos ritmos, ainda sutil, feito as palavras datilografadas que me acompanharam; e como as notas soltas que aprendi com o taxista espanhol que agora é brasileiro. Espero encontrá-los em breve e deixo aqui uma vista que vou colocando em andamento.

Imaginários Coletivos

No dia 09 de Maio o artista Bruno Vilela começou sua conversa partindo de perguntas que ele coletou feitas pelos moradores de Pirangi   e que eram direcionadas aos artistas residentes. As questões se concentraram em torno das formas de sustento dos artistas e de alguma função social, como, por exemplo, em como os artistas viam em seu trabalho algum retorno para a sociedade. Na sequência da conversa ele apresentou os vídeos com os depoimentos dos artistas sobre os trabalhos que realizaram concretamente ou ficcionalmente durante o período da residência. Esses vídeos relacionados às perguntas dos moradores locais desdobrou numa conversa sobre a função social do artista no sentido de proporcionar outros imaginários coletivos.

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Desburocratizando a Fala

O artista residente Cleverson Salvaro realizou seu debate pulverizado ao longo do dia 08. A conversa começou com um passeio de barco seguido de mergulhos nas piscinas naturais no mar da costa de Pirangi do Norte. O tema inicialmente proposto foi “o artista como burocrata” e a sua ação-debate se orientou para desburocratizar os procedimentos discursivos de legitimações dos artistas. Na sequência do dia da conversa cozinhou peixe assado nas brasas da churrasqueira.

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Faxina e distopias

No dia 07 de maio a artista Graziela Kunch propõe uma limpeza coletiva da casa durante duas horas em silêncio, com falas estritamente necessárias ao processo de limpeza. Sua proposta pode ser lida como uma performance ou uma alegoria sobre uma distensão entre arte e cotidiano. Na sequência ela decide deixar a residência e ainda sem saber os artistas executam a seu modo a proposição dada.

Como destruir o Capitalismo para acabar/salvar a Arte

 por Gustavo Speridião

Eu gostaria de perguntar aos camaradas que aqui estão na ‘marra’, colocados no paraíso, o que vocês acham que é o mundo? Um lugar muito bom?; um lugar ruim, mas vocês tiveram sorte? “Nenhuma das anteriores”. “Está muito fácil, eu preciso de mais problemas”.

“Eu não acredito que a arte é uma esfera, uma escala, uma estrutura, ou qualquer outro nome que a se possa dar, tão essencial para a sociedade a ponto de ela ter esta importância para as discussões políticas. Acredito que a função dos artistas vem antes do capitalismo, que já é uma coisa que está encruada na humanidade, em todas as esferas que ela já existiu e no momento de hoje, de mal-estar geral. Nós estávamos andando na praia e conversando: “ hoje não vai ter um debate entre cubismo e futurismo exacerbado, com as pessoas inflamadas dizendo o que elas acham que é a verdade sobre a realidade”. A gente está muito longe disto. Acho que a única coisa onde ainda existe debate é: a gente vive num sistema maneiro ou a gente vive num sistema ruim? Vários vão achar que o sistema é péssimo a ponto de não ser possível reformá-lo. Existem as pessoas que acreditam que algumas mudanças em algumas leis e em algumas instituições vão melhorá-lo. Algumas pessoas com discursos como o que eu estou a dizer são consideradas dogmáticas, a exemplo de que o conhecimento é construído com todos, acho mais interessante saber  a opinião de todo mundo, já que estamos todos com microfone, sobre o que as pessoas acham que é o sistema. Como é a relação individual com essa realidade; se é contra ou a favor; se consegue imaginar, como se fosse uma terceira pessoa, a própria atuação nesse mundo. Só isto, fazendo uma rodada agora, quem quiser falar, quem quiser não falar. Muito obrigado pela atenção, obrigado a todos aqueles da Funarte caso ouçam, espero que seja uma boa noite.”

Transcritas acima as palavras de Gustavo Speridião que dão início a sexta noite de debates no Mergulhos Poéticos, a conversa se desenrolou no campo controverso da arte e política.

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